Residência NARA:
Altares sem santos
Meu contato com o invisível começa com a morte de entes queridos e com a curiosidade. Depois vem o medo, ver sombras sem saber o que são. Por muito tempo, achei difícil me conectar com o invisível porque, francamente, tudo me parecia tão rígido. A natureza sempre me pareceu mais próxima de Deus do que a própria igreja. Quando prestamos atenção à natureza, compreendemos tudo o que ela pode nos ensinar. Aprendemos que nada morre de verdade, que a energia é reciclada. Aprendemos que depois da chuva vem o arco-íris. Aprendemos a admirar todas as formas das folhas, todos os tons de verde, as flores, as árvores, os rios. Aprendemos que ninguém entra duas vezes no mesmo rio: a pessoa mudou, e o rio também. O que quero dizer é que tudo o que eu pensava ter aprendido entre quatro paredes, uma cruz e um teto altíssimo é exatamente o que a natureza me ensina sem levantar a voz. As paisagens nos ensinam que existem coisas das quais não podemos escapar: os sentimentos. Uma diretora francesa chamada Agnès Varda disse certa vez: “Se nos abríssemos para as pessoas, encontraríamos paisagens”. A natureza nos oferece constantemente símbolos capazes de nos curar, de nos fazer pensar e refletir. É por isso que os símbolos me fascinam tanto. "Quando a alma quer experimentar algo, ela projeta uma imagem e entra nela", disse Meister Eckhart, um teólogo do século XIV. E é isso que sinto quando mergulho no mar, quando caminho, quando vejo um gato ou uma vaquinha. Minha alma processa e cura partes de mim que eu jamais imaginei que precisassem de amor.
Como sociedade, raramente concordamos em algo. Mas os símbolos parecem ser uma linguagem universal. E nós, como bons aprendizes, também criamos nossos próprios símbolos. Criamos altares que muitas vezes não têm santos. Um altar pode ser uma vela, um carrinho de brinquedo, uma moeda e uma flor. Isso pode ser suficiente para manter vivas as crenças que carregamos dentro de nós. Minha arte, minhas telas, meus modelos, seja o que for, é um exercício eterno de colecionar símbolos que me fazem sentir o indescritível. Quantas vezes você já sentiu algo que não conseguiu explicar? É para isso que serve a arte: para nos lembrar que, às vezes, as coisas que mais amamos e que são mais importantes para nós não têm nome. Quando pinto um altar — seja ele criado por mim, por outra pessoa ou pela natureza — eu me envolvo profundamente com ele. Ficamos sentados juntos por horas, e enquanto eu o crio, ele também me cria. A natureza, os símbolos, os altares, a própria morte e todos os nossos sentimentos: são portais que nos transformam e nos aproximam de nossa melhor versão. No fim, não somos nada mais do que animais com sentimentos complexos. Criamos nosso ninho — imaginário ou físico. Criamos nosso lar, nossos símbolos, nossas crenças. E é isso que nos torna espirituais. Como Marga me disse: “Pensamos que ser espiritual significa ver auras ou espíritos, mas a verdade é que nos conectar com nós mesmos, com o universo, é como nos tornamos espirituais conscientemente, porque a verdade é que todos nós já somos seres espirituais.”



