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Como foi a Residência NARA?

  • giudandreasilva
  • 14 de abr.
  • 6 min de leitura

Já fazem 4 meses desde que eu voltei das minhas três semanas na Colômbia. “Não sei porque demorei tanto pra escrever” é meu primeiro pensamento. Mas só de lembrar que quando voltei já era o mês do natal, seguido pelo ano novo e meu aniversário de 30 anos, me toco que demorei porque a vida me levou como um rio leva uma folha longe da margem.


20 dias na Colômbia. O primeiro dia não foi bom. Mas isso não tem nada a ver com a Colômbia e nem com a residência. Eu tinha ficado só um dia em São Paulo desde que tinha retornado da Residência Serrinha, em Bragança Paulista, interior de SP. Lembro de ter chorado muito e de ter tido muito medo. A primeira semana me provou que eu estava errada em chorar.


A Villa de Leyva fica no departamento de Boyacá - departamento é uma espécie de estado, mas existem diferenças como maior liberdade administrativa. É uma zona rural, e todos que vivem lá são carinhosamente chamados de campesinos.



Foram muitas novidades encavaladas. Ficamos, eu e a fotógrafa argentina Flor Aprile, na sede do projeto que leva o nome da residência. NARA é uma sigla: Ninho de Águias Residência Artística. O objetivo do projeto Ninho de Águias é a restauração e a preservação de sementes antigas da região que caíram no desuso, seja por conta da indústria farmacêutica ou até mesmo a alimentícia. É uma forma de manter a ancestralidade firme e ao mesmo tempo garantir segurança alimentar - e ainda ajudar a combater enfermidades tanto físicas quanto mentais. Além disso, o terreno ficava próximo à montanha de Iguaque, a montanha mágica que segundo a tradição foi onde surgiu a humanidade. De acordo com a mitologia Muisca a lagoa de Iguaque é o berço da humanidade porque foi ali que a deusa Bachué surgiu das águas e, com seu filho, povoou a terra.



Pós primeiras impressões, eu estava em casa. Natureza, magia, América Latina. Tudo que eu amo e admiro.



A primeira e a segunda semana foram de exploração. Conhecemos o pueblo, a cultura, a comida. O diretor criativo que nos guiou por todo esse processo se chama Leandro Mussi, um pintor colombiano talentosíssimo e muito carinhoso. A dona do projeto Ninho de Águia se chama Angela, e ela é parte importantíssima para a cultura da Villa e da área rural a sua volta. Além disso, parte do projeto era dialogar com pessoas que morassem ali por perto e que tivessem conexão com a linguagem e temática de cada artista da residência - nesse caso yo y Florzita. Minha parceira foi a terapeuta Ayurveda e estudiosa Marga, na parede da sala de sua casa tinham tantos diplomas que eu perdi a conta. A intenção do projeto era que as questões ligadas ao visual estético e conceitual da obra fossem tratadas com Mussi. A parceria com Marga tinha o intuito de explorar outras áreas, principalmente a pesquisa.



A terceira semana foi a semana mais voltada à produção artística. Foquei principalmente no conceito, que depois foi traduzido para, “Altares sem santos” - os altares da natureza. Ao final deixo o texto construído para a exposição, que foi chamada de Picnic Artístico. Foram ao total 8 peças. Duas peças, as iniciais, foram de altares feitos por mim, ali, com os materiais e os símbolos que tinham moldado as minhas 2 primeiras semanas. A próxima peça foi uma casa, sem portas e janelas, feita com restos de madeira da árvore que ficava na frente do meu quarto. Em seguida pintei uma tela que falava principalmente sobre a forma como consumimos e somos consumidos pelos símbolos que nos chamam. A retroalimentação, o processo de comer e ser comido. E por fim, vieram as 4 telas que falavam exclusivamente sobre os altares sem santos. Meu processo de criação começa nas fotos e parte pras telas depois.



Nosso Picnic Artístico foi perfeito. E agora a explicação do nome: cada convidado poderia trazer uma comida e, Angela e sua parceira, carinhosamente apelidado de Vecinita, cozinharam comidas maravilhosas também. Então a programação era: íamos até o espaço onde havíamos montado nossas peças e depois iríamos comer todos juntos. Para explicar como foi a montagem preciso antes explicar como era o terreno. A parte onde ficava nossa casa era no alto, e um pouco à frente havia um morro. No começo desse morro era onde ficava a horta e mais para baixo (e quando eu digo isso era porque tinha uma descida enorme) ficava uma agrofloresta. Diversas espécies de flores, árvores, animais, todos vivendo em perfeita harmonia.



No espaço onde montamos, ou seja na agrofloresta, eu construí uma espécie de portal no lugar onde expus minhas obras. O portal foi feito com galhos, flores e barbante (e um pouco de pressa porque ia começar a chover). O intuito era como se eu e todos os visitantes estivessem entrando em um pequeno grande altar. Ao final das explicações sobre minhas obras, propus um ritual de agradecimento, onde cada visitante e participante pegasse uma semente (separadas antes por mim e Angela), agradecesse e a colocasse em um buraco onde plantaríamos nossa gratidão pela oportunidade de fazer parte daquele lugar, daquele espaço-tempo.



Depois disso começaram as arrumações de malas, as despedidas, os choros e então o “até logo”.


Por mais longo que seja esse texto, ele não exprime nem 1% do que foi viver essa experiência. E por isso vou colocar alguns adendos que ficariam confusos caso tivessem sido colocados em linha do tempo.


Flor Aprile foi uma mãe-irmã argentina durante esse processo. Fizemos companhia uma à outra, cozinhamos juntas, lavamos louça juntas, vivemos juntas e criamos juntas. Leandro Mussi foi a base sólida que permitiu nosso crescimento ali. Foi ele e Sofi - a gestora cultural que remotamente nos acolheu - que me ajudaram a criar um fio condutor sólido e coerente para a exposição. Mussi me apresentou seu marido, Faber, e seus cachorros: Guardián, Luna e Ranchera. Uma família pela qual eu me apaixonei. Foi Angela que fez com que tudo isso pudesse ser real, ela vive ali há muito tempo já e é a responsável pelo futuro alimentar de um pueblo inteiro. Foi Vecinita que me ensinou sobre a gentileza colombiana em sua forma mais pura e foi Marga que me deu ferramentas para ir mais fundo, atravessar ainda mais o véu que cobre a espiritualidade e acreditar em mim mesma.


Foi Flor que quis que uma de suas temáticas fossem as crianças do pueblo e por isso fui abençoada com a possibilidade de conhecer as crianças de uma escola rural colombiana. Que crianças lindas, quanto amor, quanta curiosidade e QUANTA sabedoria! Adentramos bosques, eles me perguntavam do Brasil, das minhas tatuagens, falavam de futebol, me deram presentes, recados, beijos e abraços. Mas mais do que isso, me ensinaram sobre os musgos, sobre como subir em árvores, algumas palavras em espanhol e sentimentos que só podem ser descritos com lápis de cor e canetinha. Samantha, Dani e os outros moram no meu coração.



E agora um asterisco muito importante: a gatinha que me manteve sã. Uma gatinha cinza, folgada e linda que vinha pedir comida todos os dias pela manhã e pela noite. E como se não bastasse, nós ainda fazíamos uma pequena caminhada noturna todos os dias, onde eu a acompanhava até o terreno vizinho - e ela esperta sempre checando para ver se eu a escoltava. 



Seria uma mentira dizer que foram dias fáceis. Eu tive dúvidas, tive medo e me senti sozinha. Senti tudo, senti saudades do meu namorado, dos meus amigos, das minhas gatinhas, da minha família. Nunca vi um banheiro com tanto inseto em toda minha vida (o que a longo prazo foi bom, mas no começo eu ficava com medo de matá-los sem querer) e a máquina de lavar roupa ficava morro acima e às vezes eu levava roupas limpas para casa embaixo da chuva fria, mas fui amada, cuidada e alimentada com comida, amor e sabedoria.



Me inscrever em uma residência na Colômbia foi um ato impulsivo e não pensado que me trouxe aprendizados que permeiam o espiritual, o artístico e o que é ser humano. Nem toda decisão que a gente toma é bem pensada, mas nem toda atitude impulsiva é uma decisão ruim. O que eu posso dizer depois dessa grande aventura é que seus sonhos valem a pena. E acho que muitas vezes esquecemos do tamanho do mundo. Sabemos que ele é grande, eu sei, mas será que realmente temos noção? 3 semanas na área rural do centro da Colômbia me ensinaram o que 2 anos dentro do meu ateliê não foram capazes. No final fica o clichê “quem não arrisca, não petisca”.


(O texto da exposição está nesse post porque esse texto já ficou grande demais).


Obrigada por estar aqui.

 
 
 

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