Assombrosa
Meu primeiro estúdio aberto aconteceu no dia 13 de agosto.
13 dias atrás.
A responsável pelo texto crítico foi a curadora Marina Bortoluzzi. Referência no mercado, ela é, pra mim, acima de tudo, referência de sensibilidade. Admiro a maneira devota como ela tece seus textos. Por isso, quando eu pensei em como seria esse texto, a única pessoa que me veio à mente foi ela.
Poderia passar horas explicando como o texto dela me ajudou a organizar cada gaveta do meu cérebro e me re-apaixonar pela minha pesquisa. Mas, ao invés disso, deixo o texto pra que tirem suas próprias conclusões. Boa leitura.
"Assombrosa"
Dia 13, no 13º andar. Giulia D’Andrea (1996, São Paulo) abre, pela primeira vez, seu
estúdio, nos convidando a adentrar seu universo interior, misterioso e enigmático, pautado
por uma linguagem própria abstrato-figurada de escuridão, que para alguns pode ser
assustadora. Somos confrontados, de imediato, com uma vibração aparentemente
tenebrosa: tons profundos, pinceladas carregadas, figuras obscuras, linhas emaranhadas,
formatos desconhecidos, cenários fantasmagóricos, vultos e forças invisíveis. No escuro,
imagina-se tudo, ao mesmo tempo que pode não ser nada.
O estranho para a artista é familiar. Até porque parte de um lugar comum. Seu processo
começa, principalmente, por fotografias que ela mesma captura de vivências do seu
cotidiano. No computador, recorta partes dos próprios registros procurando “a foto dentro da
foto”, muitas vezes focando em pequenos fragmentos de um panorama maior. O frame
pode gerar visuais pixelados, ampliados ou distorcidos. A fotografia funciona, assim, como
uma espécie de preparação para a tela ou de “desculpa para pintar”. A partir dessa base, a
imagem é desfigurada, desfocada, desconstruída. Seu interesse não está na reprodução fiel
ao registro, nem no compromisso por uma representação orientada pelo realismo. Ao
contrário, o retrato é deslocado até perder de vista sua referência, se tornando algo
irreconhecível, acoplado de novos significados. O deslocamento é, portanto, um conceito
vivido por ela na prática, cujo detalhe encontrado no banal recebe uma nova realidade,
completamente diferente de seu contexto original, adquirindo uma dimensão simbólica.
Fã de analogias e metáforas, Giulia busca, constantemente, relações na ambiguidade das
imagens. Sua produção parte do desejo de “dar forma às coisas que não têm forma”,
especialmente os sentimentos, criando horizontes para que as pessoas possam reconhecer
e refletir sobre suas próprias questões. Assim, um tufo de grama, um holofote, o tronco de
uma árvore, uma folha ou raio, o reflexo de um lago podem atuar como pontos de partida
para associações atravessadas por nossas experiências pessoais. Ela lembra da frase da
artista Agnès Varda: “Se abríssemos as pessoas, encontraríamos paisagens” (1). Para Giulia, essas paisagens são os nossos estados internos, que podem ser luminosos, sombrios, ensolarados, chuvosos, turvos ou tranquilos. A natureza que lhe serve de inspiração, ensina justamente a coexistência dessas polaridades: nela, vida e morte, luz e sombra, crescimento e destruição podem habitar o mesmo espaço. Por esse motivo, a artista tem a intenção de despertar um olhar capaz de reconhecer beleza naquilo que inicialmente pode provocar espanto, transformando o estranhamento como matéria de criação.
Mas nem tudo precisa ser nomeado, às vezes o escuro é só o silêncio do vazio. Giulia encontra em Simone Weil (2) uma reflexão sobre o acolhimento do vazio dentro de si como uma força sobrenatural, relacionando essa ideia à aceitação da morte. A morte, aliás, é um assunto caro à artista, não de maneira mórbida, mas como campo de pesquisa. Seu interesse transita por histórias de quase-morte e pela consciência da finitude. Rosa
Montero, em O Perigo de Estar Lúcida (3), cita Eva Meijer: “Trazemos a escuridão em nós. A morte já está no nosso corpo enquanto vivemos. Somos seres transitórios”, para lembrar
que os artistas são incansáveis caçadores do sublime, viciados em intensidade, perseguindo o extraordinário como uma forma de lançar luz sobre a escuridão. Essa
percepção reverbera nas noites escuras pintadas por Giulia, em que o breu deixa de ser
sombrio para se expandir como um território amplo de investigação e interpretação, aquilo
que a artista chama de “fertilidade da sombra”. A escuridão abriga as possibilidades do
nosso devir. É nesse vazio desconhecido que nasce a fé e estabelecemos conexão com a
fonte primordial, por muitos denominada Deus.
Em meio à imensidão de referências, frases anotadas e pensamentos rápidos que
atravessam Giulia como se estivesse dirigindo um carro em alta velocidade, ela produz
simultaneamente três ou quatro telas e tem na tinta a óleo sua principal ferramenta. Luz e
sombra ultrapassam a esfera subjetiva e se inscrevem concretamente na materialidade da
pintura. Sua fatura é marcada por diferentes densidades de tinta, alternando áreas mais
diluídas e claras com camadas grossas, espessas, acumuladas, fartas e escuras. Por
vezes, pontos ou pinceladas de azul cobalto funcionam como sustentação cromática das
zonas de penumbra. O desfoque ou blur integra o procedimento da pintura, aproximando da
maneira como a imagem se constitui na memória. Além das telas de tecido, a artista
trabalha em superfícies de madeira e objetos resgatados. No ateliê, encontramos ainda
séries de fases anteriores e figurativas, como uma em que explora altares particulares, com
velas, ervas e santos, pintados em telas e caixas de charutos cubanos. Também podem ser
vistas esculturas e instalações que permanecem em processo de experimentação e
transformação.
Na iminência do medo, a escuridão nos projeta para aquilo que Giulia chama de “momentos
de eternidade”, em diálogo com os “momentos oceânicos” de Romain Rolland, termo que
Rosa Montero retoma para descrever os breves instantes de encantamento em que o
mundo parece adquirir outra intensidade e o eu se dissolve, fundindo-se às partículas do
Todo. É nesse ápice que a pintura de Giulia se aproxima do assombro de Walter Benjamin (4), quando a “torrente das coisas” é interrompida e o familiar entra em suspensão. A tela
revela-se como um pequeno rochedo diante do fluxo, interrompendo uma leitura automática
e ampliando a percepção. Pela própria origem da palavra, ligada à sombra, Giulia é
assombrosa. Não apenas pelo modo como investiga a escuridão, mas pela capacidade de
nos causar maravilhamento. Ao fixarmos o olhar sobre a sombra, a artista nos conduz para
o caminho da luz.
Marina Bortoluzzi
Curadora
São Paulo, agosto de 2026
(1) VARDA, Agnès. As Praias de Agnès [Les Plages d’Agnès]. França, 2008. Documentário. (2) WEIL, Simone. A gravidade e a graça. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2016.
(3) MONTERO, Rosa. O perigo de estar lúcida. São Paulo: Todavia, 2023.
(4) BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo, Brasiliense, 1987.
BIO ARTISTA
Giulia D’Andrea (1996, São Paulo) vive e trabalha em São Paulo, onde mantém seu ateliê
próprio, no bairro de Perdizes. Sua principal linguagem é a pintura a óleo, na qual
desenvolve uma produção marcada pelo simbólico e pelo abstrato. Sua prática investiga a
espiritualidade e a coexistência de sentimentos opostos, como sombra e luz, por meio de
questões recorrentes como a morte, as manifestações do sagrado no cotidiano, como nos
altares, e os ciclos da natureza.
Sua pesquisa se alimenta dos estudos da teosofia, do hermetismo, da simbologia, da
meditação e de diferentes tradições religiosas, como o cristianismo, o espiritismo, o
hinduísmo e o ocultismo, além de vivências pessoais e compartilhadas e da incorporação
de sua mediunidade. A partir desse repertório, cria portais visuais que atravessam o
imaginário coletivo, na intenção de compreender a força daquilo que consideramos sombra.
Graduada em Publicidade e Propaganda pela ESPM, complementou sua formação artística
com orientação em grupo na Casa Contemporânea e no Piscina, com Paula Plee e a
curadora Ana Roman; curso de pintura a óleo com o artista Igor Baldez; mentoria individual
com a consultora Júlia Demeter; e mentoria em grupo com a curadora Marina Bortoluzzi.
Participou das residências artísticas Serrinha, em Bragança Paulista, e NARA, na Colômbia.
BIO CURADORA
Marina Bortoluzzi (1983, Florianópolis) é curadora independente e pesquisadora
contemporânea. Sua pesquisa transita na intersecção entre arte, mulheres, abstração,
metafísica e espiritualidade.
Mestre pelo Programa de Pós-graduação em Estética e História da Arte da Universidade de
São Paulo, Marina apresenta mais de 15 anos de trajetória consolidada em pesquisa,
curadoria, mentoria, conteúdo, comunicação, consultoria e coordenação de projetos de arte.
Assina a curadoria de exposições de arte no Brasil, Rússia, Alemanha e Estados Unidos e
foi palestrante em festivais internacionais como SXSW (Austin), Wynwood Walls (Miami) e
Wool Festival (Portugal).
Em 2020, fundou o WOW - Women on Walls, uma plataforma mundial voltada para a
valorização e crescimento profissional das mulheres e pessoas não-binárias nas artes
visuais. Em 2024, lançou o Spiritual in Art, projeto focado à pesquisa, exposições e
experiências sobre o espiritual na arte. Em 2025, inaugurou o Programa de Mentoria e
Acompanhamento Curatorial Flamma, direcionado a artistas visuais que investigam
dimensões do espiritual. Vive e trabalha em São Paulo há mais de 16 anos.
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